Galeria Lewis Guy – Den Haag – Holanda 2002

Tão disciplinada como a linguagem estética dos clássicos e tão apta a reflectir as pulsões de um artista livre e emocionado, esta pintura remete-nos para a polivalência humana em todo o seu esplendor. Exercício de apropriação de um real que se desdobra e domina, os trabalhos de Oliveira Tavares surpreendem o observador com o inesperado convívio de formas que se avultam ou diluem no magma dos seus registos.

Importa referir que é na diversidade de impulsos, cores, texturas e na multiplicidade de ritmos propiciatórios que as distintas partes da obra se articulam, como se de um puzzle se tratasse ou como se houvesse intenção de pôr em paralelo as porções heterogéneas do todo. O resultado tem a ver com o sucesso da procura de grafismos ou de elementos que estabeleçam o equilíbrio e sejam capazes de transmitir harmonia. Radica nesta dinâmica o principal da pesquisa a que se vem dedicando este artista plástico desde o seu início.

Muitas destas presenças são-nos familiares. Corpos, cabeças, rostos e mãos pertencem a outros enquadramentos e, na origem, narram histórias diferentes. Aqui são como que evocações do afecto, elegias ou meras referências que operam como pontos de partida para um novo e actual discurso, espécie de repto a que o autor responde com a sua própria caligrafia pictórica. Adequando as imagens previamente selecionadas ao clima que pretende comunicar, aceitando-as na sua força peculiar ou alterando o sentido da sua integração no presente contexto, o pintor interage com o mote para aceder a uma criatividade pessoal.

A virtude primordial desta linguagem reside, quanto a nós, no facto de coexistirem, no mesmo espaço, pelo menos duas atitudes opostas. Com efeito, oscilando entre o rigor inerente à reprodução fiel e a inquieta divagação que culmina no equilíbrio destes contrários, Oliveira Tavares a si mesmo se retrata e justifica. Ei-lo, consequentemente, em sua riqueza de sensibilidades e técnicas, seu temperamento, seu amor pela figuração e a sua apetência pela liberdade, de tradução muitas vezes gestual.

A Arte também se entende como um vasto repositório de informação e, num tal contexto, estas telas afirmam a ductilidade integradora deste caminhar de séculos em busca da unidade virtual para que tendem o passado, o presente e o futuro sempre que, ultrapassando os preconceitos, concluímos pertencer ao mesmo universo de valores. São meramente formais as diferenças quando se coloca o homem na origem e no destino do acto criador!

O cromatismo intenso que percorre as áreas dos poucos planos envolventes e a utilização de vocábulos para ler, estar ou significar, acabam por assumir plasticidades ricas que abrem para uma multiplicidade de leituras esta pintura intemporal. A obra surge-nos, assim, como algo que se irá fruindo, com crescente profundidade, como função da simples persistência do olhar.

Edgardo Xavier
Crítico de artes plásticas
A.I.C.A / Portugal
Estoril,2002
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Texto de Rosa Lobato de Faria para a exposição da Galeria Iosephus em Lisboa a 13 de Novembro de 2003.

Quanta luz, quanta cor, quantas imagens estilhaçadas pode a memória guardar
no coração e na cabeça?
De que infância, de que lugar onírico, de que aprendizagem esquecida, surge o
encontro, o reconhecimento, a cumplicidade com um caos partilhado?
Ancestral, telúrica, quase pura, quase erótica, a vibração das cores primárias.
Depois os tons compostos dedilham uma partitura de sons, evidenciam o que
escondem e aos poucos deparamo-nos com o conhecido, o tranquilizador, o nosso:
mãos femininas, a boca adolescente oferta de quadro em quadro, apontamentos
de anjos, rastos de poetas, a bilha de barro milenar, a água primordial. E a fruta.
Sensual. Trincável. Matinal e bíblica.
Talvez o pão, talvez o fogo.
Os tecidos palpáveis, os cabelos apaziguadores das mulheres.
E a explosão de tudo, que António Oliveira Tavares transforma em telas para o nosso
prazer, deslumbramento e inquietação.

Rosa Lobato de Faria
13 de setembro de 2003
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Texto de Rosa Lobato de Faria para a exposição da Galeria Iosephus em Lisboa, 2006

De súbito os azuis. Trazidos pelas mãos do mar, pelos olhos dos recém-chegados. Nem por isso menos inquietantes, as telas confundem-nos de evolução, de ruptura dinâmica, de procura. Os temas clássicos ainda lá estão, mas libertam-se de limites. Já não confinados, convivem com as figuras de uma época diferente( ), como se fossem estados de alma, assombrações ou, quem sabe esqueletos no armário. Isso, porém, não parece incomodar os novos habitantes. Como a dizer, que o tempo não existe, partilham o espaço, numa cumplicidade que o mar justifica. Mesmo quando, finalmente, desaparecem( ), a sua evocação ainda lá esta . Ninguém é somente o que aparenta, mas a intersecção no outro( convite ). E a luz do poente a confirmá-lo. Se o vermelho surge( ) inquieta-nos ainda mais. Remete-nos para uma explosão de sangue e vida que nos avisa de que o amanhã será diferente mas não menos complexo.
O olhar fica preso. Procura-se numa tela a explicação da outra e não se encontra. Se o sorriso dos noivos ( ) nos tranquiliza, logo o seu fantasma nos perturba. Se o mar, na sua luz dourada nos acalma, logo os braços de outra era( ) nos estrangulam. Se a Natureza responde, os humanos interrogam. Se os azuis nos sorriem, os vermelhos alertam.
A Ana ( ) vem devagar, em plena tela, a pedir que fiquemos, que procuremos as respostas. Mas onde encontrá-las a não ser no nosso próprio coração? É, porém, da natureza da inquietação confundir as conclusões e o coração não contesta. Não, enquanto o olhar deambula de cor em cor, de espaço em espaço, de horizonte em horizonte. Horizontes novos, alargados como promessas. Não, enquanto nos apetece ficar aqui, a garimpar, não sei porquê, saudades do futuro, como aquele homem solitário e magoado( ), tão comovente que nos obriga a procurar refúgio no círculo do sonho( ) em busca de outra ficção que a areia esconde.
De súbito, os azuis.

Rosa Lobato de Faria
18-Março-2006
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Poética da Luz

A Pintura de Oliveira Tavares é uma Pintura de Luz.
As suas telas sempre acrescentam luz à luz sem a dividir, sendo cada uma das suas pinceladas, um hossana dado por suas mãos a QUEM a dispensa a todos nós para que a partilhemos.
Que nos oferece o Pintor pelas suas impressivas imagens?
Muitos sentimentos que, vivenciados, ora em vigília desperta, ora por sonhos rememorados, sugerem, exprimem, chamam, pois a sua força telúrica deseja transmitir-se, comunicar, expressar-se.
Torrentes de luz, ei-los, por vezes, limpos nos azuis, quentes nos doces e fortes amarelos, verdes águas criadoras, vermelhos, quais gritos que não cabem em peito generoso, mas levantados em mãos suaves, delicadas, mesmo quentes… dedos, quais pétalas, perfumando o silêncio.
Há rostos, bocas, dessas carnudas, quase disponíveis, mas seladas, interiores, secretas.
Então, os olhos?!
Que suavidade! Que distância. Que força de expectativa, que descida pela interioridade…
Também se ouve música nas suas telas. Uma música antiga, nascida do vento dedilhando o vazio das ânforas, qual corpo de mulher que em sonho se ouviu, ou viveu?
Há vezes em que o Pintor escreve Dor, e tantas são as letras dessa palavra que enchem uma tela até ao desespero ou até as mãos se renderem…
Se esvoaçam anjos ou, acaso, escutam, é porque eles desejam entrelaçar-se na vida e o pintor não os dispensa.
Dissemos que Oliveira Tavares pinta a luz e que baste que o abonemos com os olhares que todas as suas telas nos oferecem: eles se nos juntam para mais sermos da Vida.
Oliveira Tavares pinta a Vida, pois não a quer para si próprio.

João Tavares
Vila Viçosa, 8 de Novembro de 2011
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Os Pequenos Príncipes – Historia de uma obra. Texto para a exposição do
Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte, Estremoz.

Oliveira Tavares, sempre consagrou sua obra em torno do retrato e do homem no sentido amplo.
A princípio da sua carreira Oliveira Tavares, realizou retratos realistas de homem, de mulher e criança com um realismo e cuidado com os detalhes que lhe é característico, pondo em evidência suas inegáveis qualidades gráficas. Pouco a pouco, ele envolverá seus retratos num decor que porá em evidência um aspeto pessoal ou privado da sua vida.
O Pintor amadure-se, sua pintura também.
Mantendo sempre o seu tema de eleição, o retrato, ele ruma a uma linguagem mais abstrata. Assim o artista, exprime de uma forma abstrata, refletida ou intuitivamente, a personalidade, um traço de vida ou de caracter dos seus sujeitos.
Sua obra torna-se cada vez mais rica, o individuo torna-se mais do que um ser vivo, animal, homem real ou imaginário.
Suas pinturas transformam-se em histórias de uma vida, de momentos, uma forma de expressão muito própria. O seu trabalho esta imbuído de um grande humanismo, terapêutico, próximo da psicanalise.
Assim que observamos uma pintura de Oliveira Tavares, descobrimos nela, uma história, histórias, verdadeiros romances, um pedaço de vida, um instante.
O nome da exposição é retirado do título de um dos quadros e o artista por sua vez foi busca-lo ao célebre conto de Saint Exupéry, “O Pequeno Príncipe”. Para ele sua obra tem algo deste querido personagem e é este seu mundo que ele nos convida a conhecer para que nos lembremos dos Pequenos Príncipes que há em todos nos.

Texto de JL Teixeira de Carvalho – Arquitecto, Bruxelas 2014
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Texto de Letícia Constant para a exposiçao na Galeria S. Francisco em Outubro de 2015.

Com intensidade estonteante as cores invadem os olhos,
invadem por dentro, quer se queira ou não;
só resta aceitar,
mergulhar nos rios de óleo e nadar,
nadar até a exaustão, sem temer o afogamento
nas ondas de tantos e todos tons.

Descobrir o universo intrigante do artista
é uma aventura que não rima com indiferença.
As formas nos envolvem entre abstrações e figuras familiares
como a de um elefante traído, um guerreiro, uma sombra,
os contornos emergindo entre as camadas de tinta
como a nos arrancar de um sonho,
oferecendo uma nova percepção
de emoções e sentidos.

De onde vêm essas imagens que dão a impressão
de precisar de nosso olhar para sobreviver?
Onde o pintor foi buscar a força do movimento dos seus pincéis,
que conquistam o espaço como os navegadores
portugueses do passado, destemidos e sedentos de novas terras?

A obra de Oliveira Tavares abraça e perturba,
conforta e desassossega;
por isto é universal em sua linguagem plena,
marcada por uma sinceridade que transborda
e nos transporta além da tela,
em um convite irresistível à beleza
e às interrogações do imaginário de um artista que
não tem medo de existir.

Letícia Constant
Paris, Agosto de 2015

(Leticia Constant é escritora, jornalista e compositora. Brasileira de São Paulo, mora em Paris há muitos anos, onde é editora-adjunta da Rádio França Internacional. Tem dois livros publicados, Espelho Eu (Poesias) e Casa 12 (Prosa poética). Foi na capital francesa que cultivou sua paixão pelas artes, especialmente pela pintura. Viajante e mulher do mundo, escolheu a capital Lisboa como âncora de inspiração, vindo diversas vezes ao ano à cidade para escrever e criar no seu segundo lar, na Mouraria.)

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